A Nova Meliponicultura: uma visão viva sobre o futuro das abelhas nativas e do planeta

 

 




Durante décadas, a meliponicultura brasileira foi compreendida principalmente como uma atividade de criação — um manejo técnico de colônias, centrado na produção de mel, própolis e multiplicação de ninhos. Essa perspectiva foi essencial para consolidar o campo, mas hoje já não é suficiente para responder aos desafios ambientais, sociais e culturais que envolvem as abelhas sem ferrão.
É nesse contexto que surge a Nova Meliponicultura — uma proposta que ultrapassa a criação de abelhas e propõe um novo modo de pensar, sentir e agir em relação a elas.

Da colmeia ao ecossistema

A Nova Meliponicultura reconhece que cada colônia é mais do que um conjunto de indivíduos: é uma expressão viva do território, uma síntese entre paisagem, flora, clima, cultura e história local.
Criar abelhas nativas é, portanto, criar condições para o florescimento de ecossistemas, fortalecendo o equilíbrio entre espécies e a regeneração das relações humanas com a natureza.

Do meliponicultor ou guardião

Nesse novo paradigma, o meliponicultor deixa de ser apenas produtor para tornar-se guardião da biodiversidade, educador ambiental e agente de transformação socioambiental.
O foco se desloca do lucro imediato para a criação de valor ecológico, cultural e comunitário de longo prazo.
As práticas de manejo passam a incorporar princípios de participação, conservação e ética ecológica — valores estes que orientam projetos como “Uruçu Capixaba: Uma Estratégia Multidisciplinar Para Conservar  a Abelha do Espírito Santo” e iniciativas em rede, como a Rede de Conservação Participativa da Uruçu Capixaba (ReConPart).

Do manual técnico ao plano de manejo

A Nova Meliponicultura propõe substituir a lógica dos manuais prescritivos por planos de manejo ecossistêmicos e participativos, que integram o saber científico, o conhecimento local e a experiência de campo.
Cada território, cada abelha e cada comunidade pedem um olhar singular. Assim, o manejo deixa de ser cópia e passa a ser coautoria — um processo de aprendizado contínuo entre pessoas e abelhas.

Do meliponário isolado à rede viva

O futuro da meliponicultura depende da capacidade de tecer redes de confiança, cooperação e intercâmbio de saberes.
A Nova Meliponicultura incentiva a criação de redes de conservação participativa, escolas vivas, laboratórios comunitários e grupos de estudo que conectem ciência, cultura e economia solidária.
Mais do que uma técnica, é uma ecologia de relações.


A COP 30 em Belém e o lugar da Nova Meliponicultura no debate climático

Com a realização da COP 30 em Belém de 10 a 21 de novembro de 2025, sob a égide da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), o mundo volta seus olhos para a Amazônia e para os desafios multifacetados da conservação, adaptação e justiça climática. (UNFCCC)
Entre os temas centrais da conferência estão a proteção das florestas tropicais, a biodiversidade, a transição justa para economias de baixo carbono, e o financiamento climático para países em desenvolvimento. (Climate-Diplomacy)

Nesse cenário, a Nova Meliponicultura emerge como um exemplo concreto de ação local com impacto global.
As abelhas nativas, especialmente as espécies de meliponíneos, são parte essencial da biodiversidade amazônica e de outros biomas brasileiros. Elas garantem a polinização de florestas, sustentam a segurança alimentar e expressam a sabedoria de povos e comunidades tradicionais.

Integrar a Nova Meliponicultura à pauta da COP 30 significa reconhecer que o manejo ecológico e participativo das abelhas nativas é uma forma direta de enfrentar as mudanças climáticas — promovendo a regeneração dos ecossistemas, a resiliência das comunidades e uma economia de base socioambiental.

Conexões entre o local e o global

As práticas de meliponicultura sustentável desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil — do Cerrado mineiro à Mata Atlântica capixaba — mostram que é possível alinhar produção, conservação e educação em uma mesma agenda.
Essas experiências inspiram ações que dialogam com os compromissos discutidos em Belém:

  • Restaurar ecossistemas por meio da polinização e do fortalecimento de corredores ecológicos;
  • Valorizar saberes locais e tradicionais, integrando ciência e cultura;
  • Gerar renda de forma justa e solidária, por meio de produtos e serviços ligados à sociobiodiversidade;
  • Educar para a transição ecológica, formando cidadãos conscientes do seu papel na conservação.

Cada colmeia bem manejada, cada comunidade fortalecida e cada rede de cooperação criada no Brasil representa uma resposta concreta aos desafios globais do clima e da biodiversidade.

Um chamado à transformação

Falar em “nova” meliponicultura não é negar o que foi construído até aqui — é honrar o caminho e abrir espaço para a evolução.
É entender que as abelhas nativas nos convidam, silenciosamente, a um modo mais sensível e responsável de viver no planeta.
A Nova Meliponicultura é, antes de tudo, uma ética do cuidado — com as abelhas, com as pessoas e com a Terra.

E, no contexto da COP 30 em Belém, essa ética ganha proporções planetárias: reconhecer que cada ninho manejado bem, cada rede de meliponicultores fortalecida, cada produto de meliponicultura valorizado, é uma contribuição real para regenerar ecossistemas, dar voz a comunidades tradicionais, e entregar resultados concretos no tabuleiro global das mudanças climáticas.

"Enquanto o mundo se reúne em Belém para a COP 30, nós estamos aqui — entre ninhos, colônias e saberes — tecendo a Nova Meliponicultura. Descubra na plataforma de conteúdos digitais Meliponicultura Sem Rodeios+ da Abelhazum como essa visão se conecta à conservação, ao clima e à justiça ambiental."

Por Murilo Drummond

*clique na imagem para acessar o vídeo. Se não disponível, acesse-o na plataforma Meliponicultura Sem Rodeios+

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