Repensando a Meliponicultura para Produção

 

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A abordagem predominante na criação de abelhas sem ferrão, foca muito na "criação" e pouco na "produção" otimizada de mel, pólen e própolis. Para alcançar um patamar produtivo, é essencial repensar as estratégias de manejo e, fundamentalmente, o volume interno das caixas utilizadas.


O Problema Central: Criação vs. Produção

Há uma carência de conteúdos claros e diretos sobre técnicas de produção. A maioria dos materiais foca no manejo básico para a sobrevivência e multiplicação das colônias, mas não em como maximizar a colheita. A principal tese é que o design e o volume da caixa devem ser adaptados ao objetivo final, seja ele conservação, polinização ou produção comercial.

A Importância Crucial do Volume da Caixa

O ponto central é a relação direta entre o volume interno da colmeia e o potencial produtivo da colônia. Como fundamentação científica citamos duas referências importantes: Paulo Nogueira-Neto: Em seu livro clássico (A Criação de Abelhas Indígenas Sem Ferrão), Nogueira-Neto estabelece volumes médios ideais para a criação de diversas espécies. Para a Mandaguari (Scaptotrigona postica), por exemplo, a recomendação é de cerca de 15,5 litros. Warwick Kerr: Em um estudo focado na produção de mel da abelha Tiúba (Melipona fasciculata), o Professor Kerr concluiu que, para maximizar a produção de mel, a caixa deve ter o dobro do volume médio da cavidade natural ocupada pela espécie.

Exemplo Prático com a Tiúba:

Cavidades naturais da Tiúba variam de 6 a 24 litros, com uma média de 15 litros. Seguindo o princípio de Kerr, a caixa ideal para produção de mel deveria ter 30 litros. O professor Kerr chegou a sugerir que volumes de 40 a 50 litros poderiam ser ainda melhores , mas que por questões práticas sugeriu manter o limite de 30 litros.

Manejo Dinâmico: A Solução do "Projeto Abelhas Nativas"

Para resolver o dilema de uma caixa grande ser prejudicial fora da época de florada, o Projeto Abelhas Nativas no Maranhão adaptou a caixa de 30 litros do professor Kerr para uma caixa de 30 litros dividida em dois módulos de 15 litros cada (o ninho e um módulo superior). Qual a estratégia sazonal utilizada? No período de manutenção (Janeiro a Julho) a colônia permanece apenas no módulo inferior de 15 litros, um volume ideal para seu desenvolvimento e manutenção. No período de produção (a partir de agosto), com o início das floradas principais, o segundo módulo é adicionado, elevando o volume total para 30 litros. Isso estimula a colônia a estocar o excedente de mel no espaço extra. Na Colheita (Novembro/Dezembro), após a extração do mel, o módulo superior é removido, e a colônia volta a ocupar apenas os 15 litros, garantindo um ambiente mais estável e fácil de climatizar durante o período de menor oferta de alimento.

Resultados e Quebra de Paradigmas

Para combater o ceticismo ("mentira de meliponicultor"), compartilho alguns resultados práticos, obtidos com colônias geneticamente selecionadas para produtividade no Projeto Abelhas Nativas: Em uma única extração, foram colhidos 12 litros de mel de uma colônia de Tiúba e 10 litros de sua colônia filha, ambas alojadas em caixas de 30 litros com manejo dinâmico.


Principais Conclusões e Provocações

  1. Volume é Chave: Para a produção, o volume da caixa precisa ser significativamente maior do que o tradicionalmente usado apenas para a criação, possivelmente o dobro do ninho natural, como sugerido por Kerr.
  2. Manejo Dinâmico é Essencial: Caixas grandes devem ser usadas de forma sazonal. Oferecer um grande volume o ano todo pode prejudicar a colônia, que gastará energia excessiva para manter a temperatura e umidade.
  3. Genética importa: O potencial produtivo de uma caixa bem dimensionada só é alcançado com abelhas selecionadas para alta produtividade.
  4. Um Desafio para Outras Espécies: Fica o questionamento a outras abelhas de porte pequeno a grande (Mandaçaia, Borá, Jataí), e por isto sugerimos que os meliponicultores experimentem caixas com volumes maiores para testar seu potencial produtivo.

É importante que os criadores de abelhas sem ferrão adotem uma abordagem mais científica e estratégica, alinhando o manejo, o volume das caixas e a seleção genética para transformar a meliponicultura de um hobby para uma atividade de alta produtividade.

                                                                                                                    Por Murilo Drummond

*clique na imagem para acessar o vídeo. Se não disponível, acesse-o na plataforma Meliponicultura Sem Rodeios+

Comentários

  1. Maria Tereza dos Santos Rodrigues15 de outubro de 2025 às 04:21

    Dica muito importante: o tamanho das caixas para garantir produção extra. Valeu professor.

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