A Profissionalização da Maturação do Mel das Abelhas Nativas: Um Chamado à Padronização e Qualidade

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Após uma década afastado de eventos do setor, minha recente participação em um simpósio sobre meliponicultura nos biomas da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, em Vitória da Conquista, revelou-se uma experiência de profundo aprendizado e reflexão. O evento, de notável organização e densidade de conhecimento, serviu como um importante termômetro das práticas atuais e me motivou a compartilhar algumas considerações cruciais sobre um tema que tem ganhado cada vez mais destaque: a maturação do mel de abelhas sem ferrão.

Desde 2003, quando coordenei o Projeto Abelhas Nativas no Maranhão, já aplicávamos técnicas de maturação para o mel da abelha Tiúba (Melipona fasciculata). Ao longo desses quase vinte anos, acompanhei a evolução e a crescente adoção desse processo. No entanto, o que observei no recente encontro acendeu um alerta para a necessidade de estabelecermos um rumo mais coeso e criterioso para essa prática.

A maturação é um processo com início, meio e fim bem definidos. Contudo, percebo que, por diversas razões, muitos produtores têm conduzido suas maturações de maneira autônoma, sem um padrão metodológico claro. Em degustações e concursos, frequentemente nos deparamos com méis maturados sobre os quais faltam informações essenciais: Qual foi a temperatura média do processo? Como o mel foi coletado? Qual foi a duração exata da maturação? Qual a localização georreferenciada do meliponário de origem?

Essa ausência de dados compromete uma avaliação justa e precisa da qualidade. Um mel que não atinge seu potencial máximo pode ser erroneamente descartado, não por uma falha inerente ao produto, mas sim devido a um processo de maturação inadequado. Para que a maturação de qualidade se destaque e seja devidamente valorizada, é imperativo que superemos essa lacuna de padronização.

Recomendações para um Caminho de Excelência

Minha mensagem se destina a todos que trabalham com mel de abelhas nativas, especialmente aos organizadores de eventos de degustação e concursos. É fundamental que comecemos a solicitar e a registrar informações detalhadas sobre os méis maturados submetidos à avaliação.

Sugiro a criação de um protocolo que inclua os seguintes pontos:

  • Ponto georreferenciado da coleta: A localização exata, e não apenas o bioma, é crucial, pois as características da flora e das leveduras selvagens variam significativamente mesmo dentro de uma mesma região.

  • Data da extração: Permite associar o mel ao ciclo sazonal de produção das abelhas e às floradas predominantes.

  • Método de extração: Seja manual, por escorrimento ou elétrico, o método influencia nas características finais do produto.

  • Tempo de maturação: O período exato, do início ao fim do processo.

  • Temperatura média de maturação: Este é um dos fatores mais críticos.

A Temperatura Ideal e a Paciência como Ingrediente Principal

A palavra "pressa" não deveria fazer parte do vocabulário da maturação. Processos acelerados, concluídos em apenas três meses, dificilmente permitirão que o mel desenvolva a complexidade de aromas e sabores que uma maturação cuidadosa pode proporcionar. Em nossa experiência no Projeto Abelhas Nativas, estabelecemos um período mínimo de seis meses de descanso para o mel.

Com base em anos de observação e prática, recomendo que a maturação seja conduzida em uma faixa de temperatura que mimetize as condições internas da colônia, ou seja, entre 28°C e 32°C. É neste ambiente que as leveduras presentes no mel trabalham de forma ótima. É um equívoco, por exemplo, assumir que parte da maturação já ocorreu dentro da colmeia. Nossos olhos não são capazes de medir esse estágio, portanto, o processo deve ser iniciado do zero, de forma controlada.

Um Apelo à Pesquisa e à Transparência

Ainda há muito a ser desvendado. Carecemos de pesquisas que aprofundem o conhecimento sobre a sucessão de leveduras ao longo do processo, a ocorrência de fermentações láticas ou alcoólicas e como essas variáveis interagem. A legislação para o mel de abelhas nativas também precisa evoluir, reconhecendo suas especificidades e se desvinculando dos padrões estabelecidos para o mel de Apis mellifera.

Finalmente, faço um apelo à transparência. É essencial que o consumidor seja informado de que está adquirindo um mel maturado. O rótulo deve conter não apenas essa indicação, mas também as especificidades do processo que o torna único. Somente com informação clara e critérios bem definidos poderemos construir uma base sólida para a valorização deste produto extraordinário, permitindo que consumidores e especialistas possam, de fato, apreciar e julgar a qualidade que nasce de uma maturação bem executada.

O terroir de um mel não se resume apenas à sua origem geográfica; ele engloba também o "saber fazer", o método e a dedicação empregados em cada etapa. Vamos juntos profissionalizar e dar o devido reconhecimento à arte da maturação do mel de nossas abelhas.

Por Murilo Drummond

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