Meliponicultura sem Frustração: Os Erros Comuns, Verdades e Técnicas Avançadas na Criação de Abelhas Nativas
A criação de abelhas sem ferrão, ou meliponicultura, tem atraído um número crescente de entusiastas. No entanto, o que começa como um hobby promissor muitas vezes se transforma em frustração. A expectativa de um manejo simples e uma colheita farta é frequentemente frustrada pela complexa realidade biológica desses insetos.
O cerne do problema, reside em um mal-entendido fundamental:
tratamos abelhas nativas como animais domésticos, quando, na verdade, elas são
e sempre serão espécies silvestres.
1. A Barreira da Expectativa: Abelhas Silvestres vs.
Animais Domésticos
O primeiro ponto de falha para muitos meliponicultores é a
expectativa. As pessoas compram abelhas esperando que se comportem de maneira
previsível, como um animal doméstico.
"Você pode criar um cachorro em Minas Gerais ou em
qualquer lugar do mundo da mesma forma. Com abelhas, isso não funciona."
Existem mais de 200 espécies de abelhas sem ferrão no
Brasil, cada uma adaptada a biomas e ecossistemas específicos. Não existe um
"plano de manejo universal". A frustração surge quando:
- Vendedores
de Internet: Muitos vendem "facilidades" e espécies exóticas
(de outros biomas) sem o devido acompanhamento, levando ao fracasso da
colmeia.
- Manejo
Artificial: Tentar criar uma abelha do Nordeste no Sul, por exemplo,
exige intervenções artificiais, como caixas com aquecedores, o que é caro
e foge da proposta de uma criação natural.
- Falta
de Retorno: O criador espera um retorno rápido (mel, pólen), mas o
manejo exige trabalho e conhecimento que muitas vezes não foram informados
na hora da compra.
2. A Chave para a Criação Urbana: Foco nas Espécies
Sinantrópicas
Para quem vive em áreas urbanas e deseja criar abelhas, o
sucesso depende da escolha de espécies sinantrópicas. Este termo refere-se
a espécies silvestres que conseguem se adaptar e prosperar em ambientes
modificados pelo homem, como as cidades.
- Espécies
Recomendadas para Cidades: Jataí, Iraí, Moça Branca e Partamona são exemplos
que se adaptam bem ao ambiente urbano.
- Espécies
Problemáticas para Cidades: A Mandaçaia, apesar de muito procurada, não
é considerada uma espécie sinantrópica. Por ser mais
"especialista" em sua alimentação, ela sofre em ambientes
urbanos, exigindo alimentação artificial constante e raramente prosperando
como faria em seu habitat natural.
Para quem deseja avançar na produção com espécies mais
exigentes como a Mandaçaia, a recomendação é clara: mova as caixas para um
local semi-urbano ou rural (um sítio, por exemplo), onde elas tenham acesso à
flora nativa necessária.
3. Análise de Caixas e Manejo: O Perigo de Perturbar o
Ninho
Vejamos uma análise técnica crucial sobre o design das
caixas (modelo INPA) e o manejo de produção.
O Erro Fatal: Abrir o Ninho na Época Errada
A regra de ouro durante a florada (época de estocagem de
alimento) é: nunca abra o ninho ou o sobreninho (os módulos inferiores da
colmeia).
"Cada vez que você abre a caixa as abelhas gastarão uma
energia danada para fechar as frestas com própolis. Essa é uma energia que elas
deixam de usar para coletar néctar."
A Solução de Manejo:
Para a colheita de mel, em vez de empilhar módulos pequenos,
a sugestão é manter o ninho e sobreninho (com volume adequado, cerca de 15
litros para abelhas do gênero Melipona) e adicionar uma melgueira
inteiriça (um módulo único e mais alto) por cima, sem divisões. A colheita é
feita apenas nesse módulo superior, sem jamais perturbar a área da cria.
4. Técnica Avançada para Coleta Seletiva de Pólen
Sobre a produção de pólen, um produto de alto valor, temos também
que ter alguns cuidados no manejo. Como exemplo, vejamos um caso específico
para a Mandaguari (Scaptotrigona) na região de Sete Lagoas, MG, onde o
pico da produção de pólen é em maio.
A técnica é específica para espécies que coletam muito
pólen, como a Mandaguari (Scaptotrigona), e visa colher o produto sem
perturbar a colmeia:
- Março
(Início da Temporada de Pólen): Identifique a entrada usual da colmeia
(geralmente na base) e sele (lacre) essa entrada.
- Adicione
um Módulo Vazio: Coloque um módulo (gaveta) vazio no topo da
caixa (ex: o 4º andar).
- Crie
uma Nova Entrada: Faça a nova entrada da colmeia neste módulo
superior.
- A
Lógica: O primeiro instinto da abelha ao retornar do campo é
descarregar o pólen, que é a carga mais pesada. Ao entrar pelo topo, ela
depositará o pólen ali mesmo, no módulo mais alto, longe da área de cria.
- Maio
(Pico do Pólen): O meliponicultor simplesmente remove aquele módulo
superior, que estará repleto de pólen.
- Pós-Colheita:
Após retirar o módulo de pólen, reabra a entrada original (inferior) e a
vida da colmeia segue normalmente, sem estresse e sem contato com o ninho.
Conclusão: Paciência e Conhecimento Local
A mensagem final é um apelo à paciência e ao estudo. O
sucesso na meliponicultura não está em "soluções fáceis" ou na compra
de espécies "da moda". Está em:
- Aprofundar
o Conhecimento: Entender a biologia da espécie.
- Ter
Paciência: Não ter pressa e observar o desenvolvimento da colmeia.
- Usar
a Espécie Local: Trabalhar com abelhas que pertencem ao seu
ecossistema.
- Ter
um Plano de Manejo: Coletar dados e tomar decisões baseadas na
observação, não na ansiedade.
Posso ajudá-lo a criar um plano de manejo para um tipo
específico de abelha ou detalhar mais alguma das técnicas mencionadas? Estou à disposição.
Por Murilo Drummond
*clique na imagem para acessar o vídeo. Se não disponível, acesse-o na plataforma Meliponicultura Sem Rodeios+
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