Mais do que Mel: Como o Propósito da Criação Define a Caixa de Abelha Sem Ferrão
No universo da meliponicultura, ou criação de abelhas sem ferrão, muito se discute sobre técnicas de manejo, divisão e, claro, produção. No entanto, precisamos alertar para um passo fundamental que muitas vezes é negligenciado: a escolha da caixa. Em última análise, a discussão sobre "produção" não pode começar sem antes definir o "propósito" da criação, pois é esse objetivo que ditará o modelo de colmeia ideal.
Embora muitos criadores mantenham abelhas como um hobby, apreciando a oportunidade de manejar as caixas e colher um pouco de mel, a atividade pode ter objetivos muito mais amplos e especializados.
"Existem outros propósitos também", listamos uma variedade de focos:
Polinização: Caixas projetadas para serem movidas e utilizadas especificamente em serviços de polinização agrícola.
Produção de Mel: Modelos otimizados para facilitar a colheita e maximizar o estoque de mel.
Produção de Pólen ou Própolis: Estruturas adaptadas para estimular e facilitar a coleta desses produtos específicos.
Conservação: Um dos pontos mais críticos, focado em fornecer abrigos duradouros para espécies em ambientes naturais.
A questão central, não é se uma única caixa, como a popular "caixa INPA", pode servir a todos esses propósitos (ela pode), mas sim uma questão de "otimização, eficácia e custo". Quando esses fatores entram na equação, um padrão de caixa específico para cada objetivo torna-se essencial.
O Desafio Crítico da Conservação
A conservação, merece uma atenção urgente. Na natureza, as abelhas sem ferrão dependem de cavidades duradouras—ocos em árvores, cupinzeiros, cavernas ou barrancos—que são "praticamente permanentes" e capazes de resistir por anos às intempéries.
O problema é que a degradação dos ecossistemas está eliminando esses locais de nidificação. "Esse é um dos problemas mais sérios que nós temos", o que sugere que a falta de "espaço" para novos ninhos é uma ameaça tão ou mais grave quanto a destruição da flora.
Nesse cenário, projetos de conservação que utilizam caixas de manejo padrão falham. Em minha experiência de resgate de colônias em troncos, observamos que, em três a cinco anos, a madeira se decompõe ou é atacada por cupins, tornando a cavidade "inviável".
Tentar usar uma caixa de manejo comum, como a INPA, para a conservação na natureza é, "praticamente impossível". São "trombolhos" (objetos desajeitados) feitos de madeira pouco resistente, difíceis de acomodar em árvores, muito visíveis (o que atrai vândalos ou ladrões) e que ainda exigiriam estruturas extras, como telhados, para proteção contra a chuva, por execmplo.
Da "Cápsula Ninho" ao "Ninho Piloto"
A solução para a conservação, seria o desenvolvimento de uma "cápsula ninho"—uma estrutura pensada especificamente para ser resistente, duradoura e de baixo custo, apta a ser espalhada pela natureza como um substituto permanente das cavidades naturais.
Para ilustrar o conceito de uma caixa de "não manejo", basta ver um "ninho piloto". Esta caixa simples, sem módulos, é usada em meliponários não para produção, mas para "monitoramento das condições ambientais no entorno do meliponário". Ao contrário das caixas manejadas (que são alimentadas e inspecionadas, frequentemente, criando uma "bolha" artificial), o ninho piloto é deixado "se virando". Ele serve como um grupo de controle, refletindo o verdadeiro potencial do ambiente.
Mesmo esse modelo, é inadequado para a conservação em campo, pois sua madeira ainda é frágil. A verdadeira "cápsula ninho" ainda precisa ser desenvolvida.
A lição final é clara: a caixa é uma ferramenta. Antes de focar na produção, o criador deve definir seu objetivo. "Quando a gente vai falar de produção, a gente tem que começar a falar também do tipo de caixa".
Por Murilo Drummond
*clique na imagem para acessar o vídeo. Se não disponível, acesse-o na plataforma Meliponicultura Sem Rodeios+
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Concordo plenamente. O lugar a oferecer às nossas abelhas é de suma importância. Vou me adaptando à caixa INPA mas este ano mesmo já tive que transportar 3 enxames pela podridão das caixas. Um modelo que garantisse a observação no desenvolvimento delas espelhando o meio ambiente propicio, seria um avanço para a criação.
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