A meliponicultura precisa ser repensada: Por uma nova linha de pensamento
1- Associação Maranhense Para a Conservação da Natureza (MA)
2-
Instituto Abelhas Nativas (MG)
3-
Associação dos Meliponicultores do Espírito Santo (ES)
Nas duas
últimas décadas, a prática da meliponicultura, que é a criação e manejo das
abelhas nativas sem ferrão, vem dando saltos significativos de adeptos. O
desenvolvimento das caixas modulares que facilitou o manejo das colônias,
principalmente a sua divisão, foi um dos fatores que contribuíram para a
disseminação da prática. Outros fatores vieram na esteira do aperfeiçoamento do
manejo e das tecnologias associadas. Estimulados pelos resultados de projetos
comunitários de meliponicultura produtivista, esta prática começou a se
disseminar para as regiões sul e sudeste do Brasil. Foram nesses projetos que
comunidades tradicionais do norte e nordeste destacavam a geração de renda e as
potencialidades do mel dessas abelhas. Contudo, longe dos resultados
produtivistas dessas experiências comunitárias das comunidades tradicionais,
criou-se um boom de negócio pela venda de colônias, como alternativa mais
viável para obtenção de lucro. Essa possibilidade se tornou bastante lucrativa,
o que estimulou a prática corriqueira do tráfico de ninhos de abelhas, não
respeitando a área de distribuição das espécies. Para piorar a situação,
soma-se a isso a grande diversidade de espécies de abelhas sem ferrão, e as lacunas
que faltam para classificar uma parcela delas, ainda não catalogadas pela
ciência.
A
Meliposfera
É dessa
situação que emergiram segmentos de interessados pela meliponicultura, dos
quais podemos separar em quatro grupos distintos caracterizados pelo propósito.
os conservacionistas, os robistas, os colecionadores, e os produtivistas. A
partir da facilidade com que estes grupos vêm obtendo informações pela
internet, suas expansões foram meteóricas. Antes restrito às universidades e às
populações que tradicionalmente já criavam várias espécies, a prática da
meliponicultura se expandiu de forma fragmentada a partir dos interesses de
cada grupo. O que se tem percebido com isso é que o conjunto dos espaços que
possuem coisas e pessoas que de uma forma ou de outra estão interconectados à
meliponicultura, não está sendo considerado. E isso é extremamente importante
se pensamos em algum próximo da sustentabilidade. A este conjunto de pessoas e
coisas denominamos de MELIPOSFERA, o que engloba os criadores, os espaços
abrangidos pelas abelhas criadas, o pasto apícola, os vizinhos que afetam ou
são afetados pelas criações, as demais populações de abelhas locais, as
populações de plantas apícolas, e tudo mais que afeta a meliponicultura, seja
de forma positiva, seja de forma negativa.
Economia
ajustada?
Como
espécies silvestres, estas abelhas, sofrendo pressão de ordem econômica,
invariavelmente serão exploradas acima das suas capacidades de produção
sustentável se não houver um entendimento claro da MELIPOSFERA. Subentende-se
aqui como produção, não só os produtos que são gerados para fins comerciais,
como mel, pólen, própolis, cerume e ninhos, mas também a capacidade de
autorreplicação do ninho. A consequência disso é o impacto negativo gerado nas
inter-relações da MELIPOSFERA. O modelo econômico vigente, também chamado de
neoclássico, passa ao largo dessa concepção, já que mira apenas o lucro.
Comunidades tradicionais por outro lado, as quais praticam a meliponicultura
com significado mais amplo do que o econômico, dado os vínculos culturais na
sua origem, carregam um modo de uso das abelhas mais próximo do que denominamos
de economia ecológica e, por consequência, mais próxima da sustentabilidade do
ecossistema.
A
desconexão com realidades múltiplas
A
desconexão da criação das abelhas nativas sem ferrão com a MELIPOSFERA tem
trazido mais preocupações do que soluções para a conservação dessas espécies,
independentemente se é feito uso econômico dessas abelhas ou não. A
MELIPOSFERA, no contexto brasileiro, envolve uma diversidade imensa de pessoas,
sendo que a maioria dos praticantes da meliponicultura são oriundos de
comunidades tradicionais do Norte e Nordeste. São pessoas que têm menos acesso
às informações, mas que contribuem bastante para o aprimoramento da prática,
pois são a base de tecnologias sociais que se espalham pelo Brasil. Contudo,
elas passam ao largo de decisões importantes que podem afetar suas vidas, mas
que atendem a interesses de um segmento bem pequeno de outras regiões do
Brasil, que veem a meliponicultura como uma fonte de lucro fácil. Referimo-nos
a atual legislação brasileira que emerge para disciplinar a prática da
meliponicultura, mas que ameaça a MELIPOSFERA, facilitando práticas de negócios
que comprometem a sua sustentabilidade, como o comércio de ninhos, por exemplo.
Diversidade
de mercado
Por outro
lado, há um imenso conjunto de coisas que as abelhas nativas sem ferrão
oferecem e que poderiam servir de base para geração de renda em pequenas
produções domésticas, assim como deve ser. Na meliponicultura não há espaço
para a produção em massa de qualquer coisa. Mesmo considerando as grandes
criações do norte e nordeste, onde se encontram as espécies mais produtivas de
mel, estas produções têm limitações pelo tamanho da floresta. Meliponicultura só
combina com a floresta em pé. Nas regiões do sul e sudeste, ainda assim, há um
potencial imenso para produções de base doméstica, seja com o mel, cerume,
própolis ou pólen, e mesmo a polinização em chácaras e quintais. O pequeno
criador, conhecendo a MELIPOSFERA, saberia por exemplo, que na sua pequena
produção o mel poderia virar uma joia gourmet de sabores caso fosse devidamente
maturado. Saberia que o cerume devidamente purificado pode servir de base para
sabonetes, pomadas e velas medicinais, com grande aceitação em pequenas feiras
locais. Saberia também que o pólen pode virar um excelente moulho agridoce para
saladas, pães, e biscoitos, assim como para a produção de hidromel e cerveja.
Caminhos
para a experimentação pessoal
Sem pensar
necessariamente em geração de renda, a prática da meliponicultura abre espaço
para experimentações quanto às diferentes formas de maturar o mel. Fazer
sabonete de diferentes tipos, fazer molho agridoce, entre outros, é um ótimo
espaço para atividades artesanais de lazer nos fins de semana ou mesmo durante
a aposentadoria. No campo da educação, a meliponicultura é um excelente suporte
para preparar crianças e adolescentes para a socialização, e o trabalho
comunitário, para a vida. Tudo isso só é possível quando feito dentro da lógica
da MELIPOSFERA. Só é possível estar dentro dela, e não ser um fragmento
desconectado à parte, se o criador realmente estiver disposto a se aprofundar
nesse conhecimento. Fica o convite e o desafio.
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