A meliponicultura precisa ser repensada: Por uma nova linha de pensamento


Comunidade extraindo mel



Por Murilo S. Drummond(1)(2), Frederico O. Drummond(2) e Adailton G. Pinheiro(3)

1- Associação Maranhense Para a Conservação da Natureza (MA)

2- Instituto Abelhas Nativas (MG)

3- Associação dos Meliponicultores do Espírito Santo (ES)

 

Nas duas últimas décadas, a prática da meliponicultura, que é a criação e manejo das abelhas nativas sem ferrão, vem dando saltos significativos de adeptos. O desenvolvimento das caixas modulares que facilitou o manejo das colônias, principalmente a sua divisão, foi um dos fatores que contribuíram para a disseminação da prática. Outros fatores vieram na esteira do aperfeiçoamento do manejo e das tecnologias associadas. Estimulados pelos resultados de projetos comunitários de meliponicultura produtivista, esta prática começou a se disseminar para as regiões sul e sudeste do Brasil. Foram nesses projetos que comunidades tradicionais do norte e nordeste destacavam a geração de renda e as potencialidades do mel dessas abelhas. Contudo, longe dos resultados produtivistas dessas experiências comunitárias das comunidades tradicionais, criou-se um boom de negócio pela venda de colônias, como alternativa mais viável para obtenção de lucro. Essa possibilidade se tornou bastante lucrativa, o que estimulou a prática corriqueira do tráfico de ninhos de abelhas, não respeitando a área de distribuição das espécies. Para piorar a situação, soma-se a isso a grande diversidade de espécies de abelhas sem ferrão, e as lacunas que faltam para classificar uma parcela delas, ainda não catalogadas pela ciência.

A Meliposfera

É dessa situação que emergiram segmentos de interessados pela meliponicultura, dos quais podemos separar em quatro grupos distintos caracterizados pelo propósito. os conservacionistas, os robistas, os colecionadores, e os produtivistas. A partir da facilidade com que estes grupos vêm obtendo informações pela internet, suas expansões foram meteóricas. Antes restrito às universidades e às populações que tradicionalmente já criavam várias espécies, a prática da meliponicultura se expandiu de forma fragmentada a partir dos interesses de cada grupo. O que se tem percebido com isso é que o conjunto dos espaços que possuem coisas e pessoas que de uma forma ou de outra estão interconectados à meliponicultura, não está sendo considerado. E isso é extremamente importante se pensamos em algum próximo da sustentabilidade. A este conjunto de pessoas e coisas denominamos de MELIPOSFERA, o que engloba os criadores, os espaços abrangidos pelas abelhas criadas, o pasto apícola, os vizinhos que afetam ou são afetados pelas criações, as demais populações de abelhas locais, as populações de plantas apícolas, e tudo mais que afeta a meliponicultura, seja de forma positiva, seja de forma negativa. 

Economia ajustada?

Como espécies silvestres, estas abelhas, sofrendo pressão de ordem econômica, invariavelmente serão exploradas acima das suas capacidades de produção sustentável se não houver um entendimento claro da MELIPOSFERA. Subentende-se aqui como produção, não só os produtos que são gerados para fins comerciais, como mel, pólen, própolis, cerume e ninhos, mas também a capacidade de autorreplicação do ninho. A consequência disso é o impacto negativo gerado nas inter-relações da MELIPOSFERA. O modelo econômico vigente, também chamado de neoclássico, passa ao largo dessa concepção, já que mira apenas o lucro. Comunidades tradicionais por outro lado, as quais praticam a meliponicultura com significado mais amplo do que o econômico, dado os vínculos culturais na sua origem, carregam um modo de uso das abelhas mais próximo do que denominamos de economia ecológica e, por consequência, mais próxima da sustentabilidade do ecossistema.

A desconexão com realidades múltiplas

A desconexão da criação das abelhas nativas sem ferrão com a MELIPOSFERA tem trazido mais preocupações do que soluções para a conservação dessas espécies, independentemente se é feito uso econômico dessas abelhas ou não. A MELIPOSFERA, no contexto brasileiro, envolve uma diversidade imensa de pessoas, sendo que a maioria dos praticantes da meliponicultura são oriundos de comunidades tradicionais do Norte e Nordeste. São pessoas que têm menos acesso às informações, mas que contribuem bastante para o aprimoramento da prática, pois são a base de tecnologias sociais que se espalham pelo Brasil. Contudo, elas passam ao largo de decisões importantes que podem afetar suas vidas, mas que atendem a interesses de um segmento bem pequeno de outras regiões do Brasil, que veem a meliponicultura como uma fonte de lucro fácil. Referimo-nos a atual legislação brasileira que emerge para disciplinar a prática da meliponicultura, mas que ameaça a MELIPOSFERA, facilitando práticas de negócios que comprometem a sua sustentabilidade, como o comércio de ninhos, por exemplo.

Diversidade de mercado

Por outro lado, há um imenso conjunto de coisas que as abelhas nativas sem ferrão oferecem e que poderiam servir de base para geração de renda em pequenas produções domésticas, assim como deve ser. Na meliponicultura não há espaço para a produção em massa de qualquer coisa. Mesmo considerando as grandes criações do norte e nordeste, onde se encontram as espécies mais produtivas de mel, estas produções têm limitações pelo tamanho da floresta. Meliponicultura só combina com a floresta em pé. Nas regiões do sul e sudeste, ainda assim, há um potencial imenso para produções de base doméstica, seja com o mel, cerume, própolis ou pólen, e mesmo a polinização em chácaras e quintais. O pequeno criador, conhecendo a MELIPOSFERA, saberia por exemplo, que na sua pequena produção o mel poderia virar uma joia gourmet de sabores caso fosse devidamente maturado. Saberia que o cerume devidamente purificado pode servir de base para sabonetes, pomadas e velas medicinais, com grande aceitação em pequenas feiras locais. Saberia também que o pólen pode virar um excelente moulho agridoce para saladas, pães, e biscoitos, assim como para a produção de hidromel e cerveja.

Caminhos para a experimentação pessoal

Sem pensar necessariamente em geração de renda, a prática da meliponicultura abre espaço para experimentações quanto às diferentes formas de maturar o mel. Fazer sabonete de diferentes tipos, fazer molho agridoce, entre outros, é um ótimo espaço para atividades artesanais de lazer nos fins de semana ou mesmo durante a aposentadoria. No campo da educação, a meliponicultura é um excelente suporte para preparar crianças e adolescentes para a socialização, e o trabalho comunitário, para a vida. Tudo isso só é possível quando feito dentro da lógica da MELIPOSFERA. Só é possível estar dentro dela, e não ser um fragmento desconectado à parte, se o criador realmente estiver disposto a se aprofundar nesse conhecimento. Fica o convite e o desafio.


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