Ameaças globais para as espécies de abelhas nativas(1)
Murilo Drummond(2)(3)
São Luís, 22/05/2021
Antes de mais nada gostaria de me apresentar: Meu nome é Murilo Sérgio Drummond, sou professor associado da Universidade Federal do Maranhão, e trânsito há 40 anos no universo das abelhas sem ferrão, seja em pesquisa, educação e capacitação de agricultores familiares. Nos últimos 20 anos tenho trabalhado em projetos comunitários de uso sustentável de abelhas sem ferrão como fonte de geração de renda e conservação das espécies. Encaro como missão eterna descortinar ao público o conhecimento científico aprisionado na academia sendo que a minha interface com este público é pela Amavida uma organização da sociedade civil com 30 anos de existência e da qual sou o atual presidente.
As abelhas, são a garantia da dinâmica reprodutiva dos ecossistemas terrestres pois respondem por aproximadamente 70% da polinização das plantas com semente (FAO, 2021).
Ao contrário do que normalmente se pensa, refiro-me às cerca de 20.000 ou mais espécies de abelhas existentes no mundo, sejam solitárias ou sociais; aliás estas últimas, as sociais verdadeiras, respondem aproximadamente por não mais do que 5% das espécies (MICHENER, 2007).
Por isto é irônico pensar nesta ocasião, Dia Mundial das Abelhas, em apenas uma espécie, que é a Apis mellifera, como símbolo dessa relação abelha-flor.
A abelha Apis mellifera, em muitos países, gera divisas econômicas de milhões de dólares com a produção e comercialização de mel, cera, pólen e própolis. Por outro lado, esta espécie tem um papel significativo na polinização de plantas agrícolas ao redor do mundo. Porém, o peso econômico dela se sobressai enormemente sobre seu peso ecológico, uma vez que seu serviço ecossistêmico de polinização é compartilhado com outras milhares de espécies.
Nos últimos 20 anos, no Brasil, trabalhei com dezenas de comunidades rurais na criação de abelhas sem ferrão. Num projeto sob a minha coordenação e suporte administrativo da Associação Maranhense Para a Conservação da Natureza (AMAVIDA) e suporte técnico-científico da Universidade Federal do Maranhão, denominado Projeto Abelhas Nativas, tivemos oportunidade de desenvolver uma tecnologia social que trouxe significativos avanços nas práticas de criação das abelhas sem ferrão de forma coletiva e sustentável, tecnologia esta que denominamos de Meliponicultura comunitária (AMAVIDA, 2005).
No norte, nordeste e centro-oeste do Brasil, ao contrário das regiões sul e sudeste, que são bastante industrializadas, as abelhas sem ferrão são relativamente frequentes no meio rural. A maioria delas são criadas em práticas que passam de gerações nas comunidades tradicionais e comunidades indígenas e estas abelhas têm um peso significativo na cultura local por meio de práticas medicinais, rituais religiosos e na geração de renda de muitas famílias. Não é muito diferente do que observamos nas demais culturas latino-americanas.
É irônico mesmo imaginar que embora estas abelhas sem ferrão, sejam espécies nativas que evoluíram e se adaptaram aos ecossistemas terrestres da América Latina tenhamos que reverenciar uma espécies exótica, introduzida nas Américas no século XVIII, que é Apis mellifera (RAMOS E CARVALHO, 2007), e estabelecer todos os nossos parâmetros e métricas de mercado de produtos das abelhas baseando-se nos parâmetros e métricas desenvolvidos para esta espécie exótica, pelos países europeus, esquecendo que os produtos das abelhas sem ferrão são completamente diferentes dos produtos das atuais abelhas africanizadas.
Triste destino este quando estamos aqui falando de polinização e produção de alimentos. Desaprendemos ao longo dos anos a lidar com estas espécies locais. É preocupante quando se constata que nas comunidades urbanas as pessoas não conhecem e mesmo nunca ouviram falar de espécies nativas sem ferrão. Principalmente os mais jovens são incapazes de diferenciar um mel de abelha africanizada de um mel de abelha sem ferrão porque nunca experimentaram destas últimas.
Sob o ponto de vista sanitário somos incapazes de estabelecer nossos próprios parâmetros para o mel, porque estamos presos a um sistema importado de cultura apropriado para países que desenvolvem estas práticas há milhares de anos, mas que não tem nada a ver com as nossas práticas culturais com as abelhas sem ferrão. Continuamos chamando de mel o que é natmel, de cera o que é cerume, de pólen o que é saburá (ou pólen fermentado).
Sob o ponto de vista agrícola, agora é que estamos aprendendo da importância dos polinizadores nativos na produção de alimento. Pouco sabemos desses polinizadores, assim como pouco sabemos de seus produtos e subprodutos. A pouca importância econômica dessas é certamente o fator que tem desestimulados pesquisas mais consistentes.
Este desconhecimento talvez seja a principal ameaça que se tem sobre estes polinizadores. Isto porque não temos como avaliar as dimensões das intervenções que fazemos, seja alterando os ecossistemas significativamente, seja implementando práticas intensivas de monoculturas que empobrecem os ecossistemas.
A própria criação intensiva de abelhas já é um fator de desequilíbrio, sejam de espécies nativas ou não. Infelizmente existem raríssimos estudos de longo prazo que permitam uma análise sinecológica apropriada sobre as interrelações de espécies, mas a criação intensiva de abelhas africanizadas é de longe a mais problemática.
Que o digam as comunidades do Projeto Abelhas Nativas que vivenciaram uma chocante experiência de apicultura migratória que levou ao adensamento de aproximadamente 5000 colônias de Apis mellifera vindas de inúmeros apicultores de diversos estados do Brasil, numa área que nunca passou por tal experiência, levando a Amavida a entrar com uma ação civil pública para a proteção da região (AMAVIDA, 2014). Nos meses seguintes a esta introdução de abelhas houve claramente uma redução da capacidade das espécies locais de estocarem alimentos e mais do que isto, devido ser época de estiagem, as abelhas africanizadas monopolizaram o acesso às poucas fontes de água potável existentes nas comunidades rurais. Apesar das colônias terem ficado apenas 3 meses, foram suficientes para que houvesse uma grande propagação de enxames, trazendo reflexos nos anos seguintes e percebido pelos meliponicultores quando da extração a ponto de terem que utilizar tendas de extração para evitar os ataques de enxames de Apis mellifera, atraídos pelo cheiro do natmel.
Esta experiência tem levado-nos a insistir na necessidade de regulamentar a prática da apicultura, o que não existe no Brasil. Com o manifesto “Por um futuro seguro para as nossas abelhas” a Amavida e o Projeto Abelhas Nativas tem pautado na necessidade de regulamentar ambas as práticas de criação de abelhas (AMAVIDA, 2016). Enquanto os meliponicultores estão sob as normas regulatória da legislação ambiental para espécies silvestres, tornando restritiva a criação das abelhas sem ferrão, as abelhas africanizadas são consideradas doméstica, sem a necessidade de nenhum tipo de regulamentação. Na verdade, a categorização de doméstica é outra forma importada de um modelo que não tem correspondente no Brasil, pois grande parte das colônias utilizadas pelos apicultores são de variedades selvagens e nenhuma adaptada com características biológicas e comportamentais em estreita relação com o homem.
Muitas pessoas podem achar estranho esta necessidade de regulamentação da apicultura, principalmente em locais onde as abelhas africanizadas se tornaram muito comuns e as abelhas nativas estão restritas a alguns enclaves. Mas há determinadas regiões no norte, nordeste e centro oeste do Brasil, mesmo em áreas de cerrado, onde as abelhas africanizadas não são corriqueiras e onde as práticas de meliponicultura são mais intensas.
Como já havia destacado anteriormente o desconhecimento é a maior ameaça global que sofrem as abelhas nativas. Me refiro aí a dois tipos de desconhecimento: um relacionado a falta de pesquisas em determinados aspectos das abelhas nativas, sejam solitárias ou sociais; e o outro relacionado a falta de disseminação do conhecimento da academia para o público interessado.
Precisamos desconstruir um modelo vigente que privilegia uma única espécie e seus produtos e mobiliza vultuosos recursos em detrimento de uma diversidade de espécies locais que têm e podem ter papel significativo na economia da agricultura familiar, principalmente.
Precisamos estimular as práticas de criação doméstica de abelhas nativas seja no ambiente rural, seja no ambiente urbano, sim porque tem muitas espécies adaptadas às cidades.
Precisamos incentivar e apoiar as pesquisas científicas sobre polinização, sinecologia, características e qualidades do natmel, do pólen fermentado, do cerume (cera com própolis). Precisamos estimular e oferecer a assistência técnica aos produtores para melhorar a produção de frutos e sementes. Precisamos incentivar às práticas de produção que valorizem os produtos das abelhas como eles devem realmente ser e não tentar maquiá-los pelos modelos da apicultura.
Neste aspecto, estes produtos adquirem potencial gastronômico imenso, com a possibilidade de indicação geográfica de origem já que quando devidamente processados, como a maturação do natmel, por exemplo, estes adquirem característica particulares da região de produção, assim como um vinho.
Precisamos facilitar o acesso a este conhecimento por meio de sites, redes sociais, cursos. Neste aspecto estamos iniciando a construção de um portal colaborativo denominado Beekipedia que propõe entre outros: a) ser um canal de diálogo entre a comunidade científica e o público em geral, b) disseminar as experiência sustentáveis de comunidades rurais, sejam produtivistas, sejam conservacionistas, c) possibilitar o acesso a cursos sobre abelhas nativas em diferentes abordagens, d) possibilitar a publicação de notas científicas para facilitar o transito do conhecimento da academia aos produtores rurais e interessados em conservação, e) oferecendo o acesso a livros e sites relevantes (BEEKIPEDIA, 2021). A proposta é que o site seja disponibilizado em 3 línguas, português, espanhol e inglês.
Desde 2015 temos empenhados na disseminação de uma postura ética na criação das abelhas. Nosso lema é: Criar abelhas – mais do que negócios – Conservação. A ideia é torná-la uma campanha mundial pela ética no uso econômico dos serviços de ecossistemas. Serviços de ecossistemas – palavra tão em uso atualmente, mas mal compreendida. Esperamos alcançar este objetivo com a ajuda de colaboradores de diferentes instituições, de diferentes países.
Alcançaremos este objetivo? Acreditamos que sim.
Referências:
AMAVIDA, Projeto Abelhas Nativas. 2005. Disponível em <https://transforma.fbb.org.br/tecnologia-social/abelhas-nativas>. Acessado em 19/05/21.
AMAVIDA. Programa Nacional Abelhas Nativas denuncia impactos negativos da apicultura migratória em massa no Maranhão. 2014. Disponível em <http://amavida.org.br/index.php/2-sitio/15-programa-nacional-abelhas-nativas-denuncia-impactos-negativos-da-apicultura-migratoria-em-massa-no-maranhao-2>. Acessado em 19/05/21.
AMAVIDA. Um futuro seguro para nossas abelhas. 2016. Disponível em http://amavida.org.br/index.php/2-sitio/9-manifesto. Acessado em 19/05/2021.
BEEKIPEDIA. Site colaborativo sobre abelhas. 2020. Disponível em < https://www.beekipedia.eco.br/>. Acessado em 19/05/2021.
FAO. FAO's Global Action on Pollination Services for Sustainable Agriculture. 2021. Disponível em <http://www.fao.org/pollination/en/>. Acessado em 19/05/21.
MICHENER, CD. The bees of the world . 2nd ed. 2007.Johns Hopkins University Press. Baltimore, Maryland. 972 P.
RAMOS, J. M.; CARVALHO, N. C. Estudo morfológico e biológico das fases de desenvolvimento de Apis mellifera. Revista Científica Eletrônica de Engenharia Florestal. 6(10). 2007 Disponível em <http://faef.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/h4KxXMNL19aDCab_2013-4-26-15-37-3.pdf>. Acessado em 19/05/21.
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(1) Palestra proferida no Webinar “Restauración de Ecosistemas y Producción de Alimentos: sin abejas imposible”, no dia 20 de maio de 2021 em comemoração ao Dia Mundial das Abelhas e promovido pelo Centro Agronómico Tropical de Investigación y Enseñanza (CATIE) Costa Rica
(2) Universidade Federal do Maranhão / (3) Associação Maranhense Para a Conservação da Natureza
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