Meu "Fracasso" no Maranhão, Parte 2: O Método de Seleção que Gerou 3,50kg/cx Mel

 



No artigo anterior, eu relatei como uma dificuldade de manejo no Maranhão nos forçou a observar a seleção natural em ação. A conclusão foi clara: para a produção comercial de mel de Tiúba (Melipona fasciculata), o caminho não era a alimentação artificial, mas sim identificar e multiplicar as colônias que sobreviviam sozinhas à estação de escassez.

Muitos perguntaram: "Certo, mas qual o método?"

Vou detalhar agora, passo a passo, como estruturamos esse manejo de seleção, que nos levou a resultados tão expressivos.

1. A Ferramenta Adequada: A Caixa de Produção

Tudo começa pela ferramenta. Baseamos nosso modelo nos estudos do professor Warwick Kerr, que indicava para a M. fasciculata um volume ideal próximo de 30 litros para produção, o que é cerca do dobro do que elas costumam ocupar na natureza.

Adotamos caixas modulares de 27-29 litros, mas com uma divisão funcional clara:

  1. "Caixa-Cria": O módulo inferior (ninho + sobreninho), com cerca de 15 litros. Este é o "lar" permanente da colônia, onde ela armazena seu alimento para sobrevivência.

  2. "Caixa de Produção": O módulo superior, de mesmo volume, que só é adicionado durante a florada.

Na proposta do Kerr, a caixa era uma só., não duas como acima. A modularidade, neste caso, não era para facilitar o manejo ou inspeções, mas sim para otimizar a colheita, que fazíamos por um método manual (não elétrico), garantindo um mel mais limpo e pronto para maturação.

Isso nos leva a uma regra fundamental do manejo: Evite ao máximo abrir as caixas. Qualquer abertura desnecessária, principalmente na "Caixa de Produção", faz a abelha parar de coletar néctar para gastar tempo e recurso vedando frestas com própolis. Isso, além de estressar a colônia, compromete os dados de pesagem. O manejo de produção deve ser, sempre que possível, por observação externa.

2. Os 3 Pilares Inegociáveis da Produção Comercial

Antes de aplicar o método, três condições precisam ser respeitadas. Se uma delas falhar, o sistema todo é comprometido:

  1. Domínio de Ocorrência: A abelha deve estar em seu ecossistema nativo, não apenas no bioma. Ela precisa ter acesso à flora local para a qual ela evoluiu e ser capaz de sobreviver sem intervenção. Um meliponário urbano, por exemplo, para uma espécie não sinantrópica, não é um local de produção comercial; é de hobby e depende de alimentação.

  2. Volume Correto: A "Caixa-Cria" (o ninho permanente) deve ter o volume correto para a espécie (no caso da Tiúba, 15L).

  3. Meliponário Separado: É crucial separar o plantel de produção das outras caixas. Não se deve misturar colônias de teste, matrizes recém-capturadas ou de hobby com o plantel focado em resultado, para não confundir os manejos e os dados.

3. O Ciclo de Manejo e Seleção Anual

O método é um ciclo dividido em três fases claras:

Fase 1: Pré-Produção (O Período de Seleção)

  • Quando: Começa imediatamente após a colheita da safra principal do ano.

  • Ação: Retira-se a "Caixa de Produção" (melgueira, vamos dizer assim). A colônia passará toda a estação de escassez (o "inverno" chuvoso ou só frio) apenas na "Caixa-Cria".

  • Regra Crítica: NÃO ALIMENTE AS COLÔNIAS. É nesta fase que a seleção natural ocorre. As colônias geneticamente mais fracas ou mal adaptadas não resistirão. As que sobrevivem são a base do seu plantel.

Fase 2: Produção e Monitoramento (A Coleta de Dados)

  • Quando: No início da primavera (para nós, a partir de agosto), com o início da floração principal.

  • Ação:

    1. Sobre as "Caixas-Cria" que sobreviveram, adicionamos a "Caixa de Produção" (o módulo superior vazio).

    2. Imediatamente, pesamos o conjunto e anotamos o peso inicial.

    3. A cada 15 dias, repetimos a pesagem e anotamos a evolução do peso.

  • A Colheita: O momento da colheita é determinado pelos dados. Quando o peso da colônia parar de subir ou começar a diminuir, a florada principal acabou. Isso elimina a subjetividade.

  • Execução: Retira-se a "Caixa de Produção" para a colheita. Também colhemos o excedente de mel da parte superior da "Caixa-Cria", devolvendo-a fechada para o meliponário. A cada frasco cheio de mel do extrator, realizamos a pesagem.

Fase 3: Seleção e Multiplicação (O Melhoramento do Plantel)

Este é o ponto-chave para o crescimento.

  1. Após a colheita, a "Caixa-Cria" (que agora está sozinha de novo) descansa por uma semana.

  2. Após esse descanso, preparamos as divisões. Mas de quais colônias?

  3. O Critério de Seleção: Definimos uma meta (ex: dividir 60% do plantel). Com base nas planilhas de pesagem dos frascos, dividimos apenas as colônias mais produtivas.

Por exemplo: se tínhamos 5 colônias no início e todas sobreviveram, dividimos as 3 mais produtivas. As 2 que produziram menos não são divididas; elas passarão por um novo ciclo de seleção. Se uma colônia apresentar baixa produtividade por dois anos seguidos, ela deve ser removida do plantel de produção e levada para o meliponário de observação. Ela não serve como matriz.

A regra mais importante desse processo: Não introduza enxames selvagens (não selecionados) no plantel. Cada vez que um criador fazia isso, ele introduzia "genética fraca" (não testada) e a média de produção do meliponário caía no ano seguinte.

Análise de Resultados: O Gráfico da Disciplina



Este método funciona? Observe este gráfico. Ele mostra a produção em Kg de quatro das nossas comunidades, entre 2003 e 2011.

As linhas erráticas (que sobem e descem) são de comunidades que não tiveram disciplina. Num ano, esqueciam de colocar o módulo de produção na época certa; no outro, esqueciam de tirar. O manejo era inconsistente.

Agora, observem a linha "Limoeiro" (tracejada com círculos). Esta comunidade, de Viana, seguiu o método à risca. Não havia ninho de fora para capturarem e seguiram as etapas sugeridas O resultado: saíram de quase zero em 2005 para a média de 3,50 Kg/caixa de mel em 2011, Outra comunidade, da região de Belágua, fora do nosso radar, devido seu isolamento, teve ninho de onde se extraiu 12 Kg, e da caixa-filha, 10 Kg. Mentira de pescador? de meliponicultor? Nada disso, pura verdade.

Isso demonstra que a produção comercial não é sobre sorte ou apenas sobre a florada. É um trabalho de paciência (3 a 5 anos para formar um plantel), disciplina de manejo e, acima de tudo, respeito ao processo de seleção.

Por Murilo Drummond

*clique na imagem para acessar o vídeo. Se não disponível, acesse-o na plataforma Meliponicultura Sem Rodeios+

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