Como e por que mudei a minha percepção sobre o impacto das abelhas africanizadas
Uma questão que sempre me incomodou é que ainda se questiona se a espécie provoca impacto ambiental ou não, mesmo entre acadêmicos de alta conta. Qualquer pessoa de formação mediana deveria saber que quando algum espaço é invadido por uma nova espécie, as dimensões de nichos serão perturbadas de tal maneira que, ou a espécie residente que ocupa o nicho será prejudicada, ou a nova espécie não conseguirá ocupar o mesmo espaço. Isto é patente. Sendo assim, se a abelha africanizada tem se expandido pelo país, é evidente que algum impacto deve haver.
Muitas pesquisas foram feitas para tentar medir este possível impacto, mas nada de concreto apareceu. As variáveis controle geralmente estão relacionadas a ocupação dos espaços de forrageamento. Isto significa que ela não provoca impacto? Não, significa apenas que nas condições experimentais realizadas não foi possível chegar a alguma conclusão. Como não posso ignorar o conhecimento básico que eu tenho de ecologia, o que posso dizer é que a variável de impacto ainda não foi detectada.
Infelizmente, por ignorância ou má fé, pessoas usam estes resultados para querer provar que a abelha africanizada não provoca impacto. O que é uma conclusão muito diferente daquela que poderia ser suscitada. Além do fato de que ainda não tenhamos nos atentado para as variáveis corretas, a degradação ambiental interfere nos resultados. Ou seja, não conseguimos separar ambas as variáveis, degradação e ocupação que nos permita tirar alguma conclusão consistente.
Neste aspecto, destaco uma área da ecologia que faz muita falta, que é a sinecologia. A sinecologia é o ramo da ecologia que estuda as comunidades e é conhecida também como ecologia comunitária. E esta falta é exatamente por causa da forma como se conduz a ciência institucionalizada. Ela é rápida, de curta duração, geralmente desencadeada num tempo em que se faz um mestrado ou doutorado. Neste tempo, é impossível ter um arcabouço consistente das relações comunitárias de diferentes espécies e mesmo do universo das abelhas. Ou seja, muitas das coisas que poderíamos entender quanto ao impacto da abelhas africanizada sobre as espécies nativas, e mesmo a relação entre elas, só seriam dimensionáveis a longo prazo.
E é exatamente isto que gostaria de destacar. Embora a solução sobre o impacto da abelhas africanizada tenha me atormentado por muitos anos, somente após 30 anos de estudos que consegui vislumbrar uma resposta. Não a partir de uma pesquisa consistentemente planejada e direcionada, mas a partir do acúmulo de pequenos detalhes na minha história. É uma mistura de oportunidade, de constatações e do registro da história oral de agricultores. Acredito que por ela é possível entender muita coisa em relação às espécies de abelhas em geral, inclusive as nativas e suas respectivas ameaças, e que muitas vezes nós somos os maiores culpados disso.
Convido você, portanto, a assistir ao vídeo com a temática acima. Por ele, poderá entender por que não conseguimos identificar as variáveis de impacto que realmente existem e por que, por exemplo, a M. scutellaris está se espalhando de forma rápida pelo sul e sudeste do Brasil. Vai entender também por que o Instituto Abelhas Nativas está abrindo no site Beekipedia, um canal de divulgação de artigos científicos baseado em notas, registros e relatos, para interessados não necessariamente da academia.
Para saber, mais acesse o link do YouTube e se inscreva em nosso canal: https://youtu.be/CTm7LU76Jdw
Instituto Abelhas Nativas
1o Vice-Presidente
.png)
Comentários
Postar um comentário