Como e por que mudei a minha percepção sobre o impacto das abelhas africanizadas


Este é um daqueles artigos que gostaria de escrever há muito tempo, mas que pela complexidade do tema me deixava receoso de não ser bem compreendido. Mas o tema é importante, porque envolve o julgamento de uma espécie de abelha exótica bastante incorporada em nosso cotidiano e que por "estampagem cultural" sempre está no nosso imaginário desde a infância. Me refiro à espécie Apis mellifera que foi introduzida no Brasil há muitos anos e que denominamos atualmente como abelha africanizada, produto da miscigenação de variedades europeias com variedade africana.

A polêmica que existe a respeito dela é que sempre foi considerada, por um segmento da população, como uma espécie que produz um impacto bastante negativo, principalmente porque compete com outras espécies nativas pelos recursos alimentares existentes, néctar e pólen. Provavelmente, em razão de ser uma espécie que tem um grande valor econômico, principalmente com peso na balança comercial brasileira, esta discussão nunca floresceu, a não ser nos debates acalorados acadêmicos e ambientalistas.

Uma questão que sempre me incomodou é que ainda se questiona se a espécie provoca impacto ambiental ou não, mesmo entre acadêmicos de alta conta. Qualquer pessoa de formação mediana deveria saber que quando algum espaço é invadido por uma nova espécie, as dimensões de nichos serão perturbadas de tal maneira que, ou a espécie residente que ocupa o nicho será prejudicada, ou a nova espécie não conseguirá ocupar o mesmo espaço. Isto é patente. Sendo assim, se a abelha africanizada tem se expandido pelo país, é evidente que algum impacto deve haver.

Muitas pesquisas foram feitas para tentar medir este possível impacto, mas nada de concreto apareceu. As variáveis controle geralmente estão relacionadas a ocupação dos espaços de forrageamento. Isto significa que ela não provoca impacto? Não, significa apenas que nas condições experimentais realizadas não foi possível chegar a alguma conclusão. Como não posso ignorar o conhecimento básico que eu tenho de ecologia, o que posso dizer é que a variável de impacto ainda não foi detectada.

Infelizmente, por ignorância ou má fé, pessoas usam estes resultados para querer provar que a abelha africanizada não provoca impacto. O que é uma conclusão muito diferente daquela que poderia ser suscitada. Além do fato de que ainda não tenhamos nos atentado para as variáveis corretas, a degradação ambiental interfere nos resultados. Ou seja, não conseguimos separar ambas as variáveis, degradação e ocupação que nos permita tirar alguma conclusão consistente.

Neste aspecto, destaco uma área da ecologia que faz muita falta, que é a sinecologia. A sinecologia é o ramo da ecologia que estuda as comunidades e é conhecida também como ecologia comunitária. E esta falta é exatamente por causa da forma como se conduz a ciência institucionalizada. Ela é rápida, de curta duração, geralmente desencadeada num tempo em que se faz um mestrado ou doutorado. Neste tempo, é impossível ter um arcabouço consistente das relações comunitárias de diferentes espécies e mesmo do universo das abelhas. Ou seja, muitas das coisas que poderíamos entender quanto ao impacto da abelhas africanizada sobre as espécies nativas, e mesmo a relação entre elas, só seriam dimensionáveis a longo prazo.

E é exatamente isto que gostaria de destacar. Embora a solução sobre o impacto da abelhas africanizada tenha me atormentado por muitos anos, somente após 30 anos de estudos que consegui vislumbrar uma resposta. Não a partir de uma pesquisa consistentemente planejada e direcionada, mas  a partir do acúmulo de pequenos detalhes na minha história. É uma mistura de oportunidade, de constatações e do registro da história oral de agricultores. Acredito que por ela é possível entender muita coisa em relação às espécies de abelhas em geral, inclusive as nativas e suas respectivas ameaças, e que muitas vezes nós somos os maiores culpados disso.

Convido você, portanto, a assistir ao vídeo com a temática acima. Por ele, poderá entender por que não conseguimos identificar as variáveis de impacto que realmente existem e por que, por exemplo, a M. scutellaris está se espalhando de forma rápida pelo sul e sudeste do Brasil. Vai entender também por que o Instituto Abelhas Nativas está abrindo no site Beekipedia, um canal de divulgação de artigos científicos baseado em notas, registros e relatos, para interessados não necessariamente da academia.

Para saber, mais acesse o link do YouTube e se inscreva em nosso canal: https://youtu.be/CTm7LU76Jdw


Murilo Drummond
Instituto Abelhas Nativas
1o Vice-Presidente









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